Ricardo

Posted in Tragédias on May 19th, 2012 by FernandoP

E para tão mais serei atento ao fim, pois o fim é um desejo. As dunas altas e selvagens, repletas de pequenos animais incognoscíveis, brancos, branco-amarelados, lépidos, ágeis, profundos. Se esgueiram pelas plantas que crescem nas duas brancas e espreitam pelos meu garrões, pelos meus pés. Até que eu chego ao mar, ao oceano, ao outro continente, onde tudo é novo e tudo é livre e não faz tanto sol.

Um outro continente, teus pés pequenos e lábio fendido e coração amargo. Não tão amargo quanto o meu, derretido apenas por causa do teu calor. Um outro continente, a leveza e peito pelado, e mãos ágeis e branco-amareladas, e olhos castanhos profundos, que se esgueiram para fora das cobertas e me arrebatam como se navalhas na minha garganta. E de olhos marejados eu sinto que cheguei ao mar, ao oceano frio, gelado, tão morto de vidas grandes, mas abastecido de pequenas vidas brilhantes no fundo escuro, que não se enchergam, que não se encontram, apenas se degladiam umas contras as outras até o fim.

Me sinto desesperado porque minha barba não cessa de crescer, e teus olhos me olham longamente do outro lado do oceano, com pesar, com seriedade, sem vida. Como se a vida tivesse se escondido deles em alguma duna terrível e insincera, traidora, de outras gentes e ações irrefutáveis. O sol demonstrando o fim, contra meus bigodes, tu causando o fim. Tu, lépido, ágil, rasteiro, branco-amarelado, ciente da traição.

Ricardo

Posted in Tragédias on May 19th, 2012 by FernandoP

Compartilhar um abraço
Um toque
Um sorriso escanteado
Um chocolate amargo

Compartilhar a neve
Ou o  mergulho profundo no mar doce (salgado) do verão que promete não acabar nunca mais enquanto tu estiveres ao meu lado

Menstruação aos quarenta

Posted in Traduções on April 21st, 2012 by FernandoP

de Anne Sexton.
Tradução de Fernando P. com base no texto de PoetryFoundation.org.

Eu cogitava um filho.
O útero não é um relógio
nem um sino badalando,
mas no décimo primeiro mês de sua vida
eu sinto o novembro
do corpo tão forte quanto o do calendário.
Em dois dias será meu aniversário
e como sempre a terra está pronta com a sua colheita.
Desta vez eu persigo para matar,
a noite em que me debruço,
a noite que eu desejo.
Bem, então—
Fale!
Estava no útero o tempo inteiro.

Eu cogitava um filho …
Você! O nunca conseguido,
o nunca semeado ou liberado,
aquele de quem os genitais eu temia,
a perseguição e o cheiro de saliva.
Te darei olhos como os meus ou como os dele?
Você será David ou Susan?
(Estes dois nomes eu escolhi e repeti em voz alta.)
Você pode ser o homem que seus pais são—
as pernas musculosas de Michelangelo,
mãos da Iugoslavia
algo entre o pastor, eslavo e determinado,
algo entre aquele monticulo pulsante de vida—
e tudo isso seria possível,
tudo isso com olhos de Susan?

Tudo isso sem você—
dois dias findados em sangue.
Eu própria morrerei sem batismo,
a uma terceira filha eles não se importaram.
Minha morte virá no meu dia de batismo.
O que há de errado com o dia de batismo?
É apenas um anjo do sol.
Mulher,
abanando uma teia sobre si própria,
um veneno fraco e aguado.
Escorpião,
aranha má—
morra!

Minha morte pelos pulsos,
dois identificadores com nomes,
sangue usado como um ramalhete
para que floresça
um na mão esquerda, um na mão direita—
É um quarto quente,
onde o sangue fica.
Deixe a porta aberta!

Dois dias para a sua morte
e dois dias até a minha.

Amor! Aquela doença vermelha—
ano após ano, David, você me deixaria louca!
David! Susan! David! David!
cheia e descabelada, uivando noite à dentro,
nunca envelhecendo,
sempre te esperando na varanda …
ano após ano,
minha cenoura, meu repolho.
Eu teria te possuído antes de qualquer mulher,
te chamando pelo nome,
te chamando de meu.