Ricardo
Posted in Tragédias on May 19th, 2012 by FernandoPE para tão mais serei atento ao fim, pois o fim é um desejo. As dunas altas e selvagens, repletas de pequenos animais incognoscíveis, brancos, branco-amarelados, lépidos, ágeis, profundos. Se esgueiram pelas plantas que crescem nas duas brancas e espreitam pelos meu garrões, pelos meus pés. Até que eu chego ao mar, ao oceano, ao outro continente, onde tudo é novo e tudo é livre e não faz tanto sol.
Um outro continente, teus pés pequenos e lábio fendido e coração amargo. Não tão amargo quanto o meu, derretido apenas por causa do teu calor. Um outro continente, a leveza e peito pelado, e mãos ágeis e branco-amareladas, e olhos castanhos profundos, que se esgueiram para fora das cobertas e me arrebatam como se navalhas na minha garganta. E de olhos marejados eu sinto que cheguei ao mar, ao oceano frio, gelado, tão morto de vidas grandes, mas abastecido de pequenas vidas brilhantes no fundo escuro, que não se enchergam, que não se encontram, apenas se degladiam umas contras as outras até o fim.
Me sinto desesperado porque minha barba não cessa de crescer, e teus olhos me olham longamente do outro lado do oceano, com pesar, com seriedade, sem vida. Como se a vida tivesse se escondido deles em alguma duna terrível e insincera, traidora, de outras gentes e ações irrefutáveis. O sol demonstrando o fim, contra meus bigodes, tu causando o fim. Tu, lépido, ágil, rasteiro, branco-amarelado, ciente da traição.