La Cigale et la Fourmi: une adaptation moderne

La Fourmi, ayant mangé divers
Pendant l’hiver
Se sentit très ennuyée
Après le froid qui s’est passé.
Point d’une nouvelle idée
Avec laquelle s’amuser.
Elle resta au matelas
Quand la Cigale passa là-bas
et la Fourmi lui à supplié:
” Amusement, s’il vous plaît !
Mon cerveau, c’est presque fondu
J’ai tout mangé mais rien lu
Vous pouvez faire une chanson
Sur les fleurs, le ciel, les poissons ?”
La Cigale, un être sans ressentiments
Fit des rhymes très belles, très inspirées.
Les yeux de la Fourmi se sont allumés
Son esprit de nouveaux étant présent.
Grand sourire, ella la donne des félicitations
La fin heureuse de l’anecdote !
” Un moment !” Crie la Cigale, pas idiote :
” Vous avez oublié ma rémunération !”

Copos quebram

De súbito não era mais eu; era o resto, era o todo, era o Mundo. Por algum milésimo de segundo deixei de ser eu e vi com os olhos que não tenho que eu não era mais eu. Provavelmente em algum esbarrão (dos outros em mim, do carro com o Mundo) me descolei dos meus olhos e consegui enxergar com os olhos dos outros. Era vazio. Era vazio. Era enorme, vazio de qualquer sensação, vazio de qualquer temperatura ou cor. Era um instante, era um momento em que eu não era centro, eu não era sequer periferia, eu não era e não estava. Eu não existi por um milésimo de segundo e consegui ver que os outros são vazios de cor e de temperatura, de cheiro ou gosto, que, de fato, é grande o vazio, mesmo que ele dure um milésimo de segundo. Não havia, por um momento, cabelo, unha, poro; não havia lembrança, memória, esquecimento; não havia bicho, não havia humano, não havia cor, não havia som, não havia nada. Só o Mundo, só o Outro, só o Resto. Aquilo que nunca se alcança (talvez no dormitar), aquilo com que se sonha.

Minhas luvas se sentiram estranhas em mim, meio suadas por dentro. Incomodadas. Elas também sumiram por um instante.

A gorda senhora com as sacolas de compra também sumiu, por um instante. Como se absorvida em mim pelo choque, pelo esbarrão, como se eu com sacolas de compra e gordo. Ela também deixou de existir por um instante.

Era vazio e tudo era indiferente.

Atlantes e cariátides

Todas as noites saía para fumar. Por volta das seis horas, que nessa época já significava carros de faróis ligados, calçava os tênis de corrida, vestia o casaco de nylon — a carteira junto com o isqueiro já estavam na mão — e direcionava-se para  rua. Ali naquele espaço confortavelmente pequeno, porém suficientemente aberto, afinal era na rua, entre a árvore e a grade da casa, entre a rua com trânsito e o prédio. Todas as noites saía para fumar. Raramente se encontrava com vizinhos; por algum motivo, preferia não encará-los quando os encontrava e seguia, de andar levemente torto, para a árvore. Ao lado dela parava, olhava para o outro lado, e fumava alguns cigarros.

Passava os dias em casa, cuidando da mãe; ela estava mais para lá do que pra cá. Não que estivesse morrendo — bem, estava, mas a Morte vinha mandando avisos já havia décadas. Mensalmente as ambulâncias chegavam à beirada do prédio, faziam tratamentos, e retornavam de maca vazia. Se perguntada, a filha não sabia exatamente como ela própria vivia, não o saberia explicar. Ia ao mercado, arrumava a casa; de alguma forma havia comida também. Provavelmente fazia tudo da mesma forma como saía para fumar todas as noites, mais por hábito do que por satisfação. De olhar vazio para a frente, como se visse a mentira que é isso de existirem coisas que podem ser tocadas. Era ágil, mãos ágeis, magras, dedos como os braços, o pescoço, os joelhos. Não usava calçados em casa, mas os tênis de corrida, estes, sempre ao lado da porta. O maço de cigarros sempre ao redor, ou na boca. Não assistia à TV, isso tinha certeza. As cores e barulhos e os assuntos a confundiam, e no fim das contas não importavam. À TV sequer olhava (a mãe a assistia sem parar).

Ou talvez não. Talvez para tudo aquilo que a filha dirigia seu olhar esvaziado de interesse, talvez a mãe percebesse. Ficava por jornadas deitada em sua cama, olhando à televisão ligada (antes era o rádio, desde pequena). Qualquer um que passasse pensaria que ela dormira de olhos abertos, já que não se mexia. Os pequenos olhos, as únicas partes brilhantes do seu corpo enrugado, fixavam-se na tela — ou na caixa de madeira, nos botões, quem sabe? Quem sabe se ela ainda enxergava alguma coisa? Talvez aquilo que a filha não via por descrença a velha não enxergava por falta de olhos melhores. Ficava quieta, o dia todo. Ambas ficavam. A filha, já velha, caminhava pouco e de alguma forma manejava as tarefas domésticas sem que se saiba como; a velha ficava parada: só se mexia quando era mexida — era levada da cama para a sala, onde parava, desta vez assistindo ao relógio da parede marcar, lentamente, o tempo que faltava pra ela.

Marcava seis horas, a filha calçava os tênis de corrida, tão confortáveis, apesar de frios nesse inverno, vestia o casaco e dirigia-se à árvore. Fumaria mais alguns cigarros, voltaria para casa, tomaria banho e lavaria os cabelos. Guardaria a velha de novo na sua cama, de TV ligada. Sentaria no sofá da sala e olharia para o relógio, provavelmente sabendo que ele também era uma mentira.